Fibromialgia – Evolução histórica e conceitos
Embora a designação fibromialgia seja recente (descrita no século XX, na década de
70), os relatos de quadros que relembram esta síndrome são seculares (Wallace eClauw, 2005).
Ao longo dos anos existiram inúmeras atribuições nominais à dor muscular crónica.
Hipócrates já a descrevia como o “reumatismo das histéricas” ao relatar casos de
mulheres com dor generalizada, associada na altura a um importante comportamento
psiquiátrico (Ellis, 2008). Smythe (1989) refere a existência de relatos bíblicos nos
quais já se encontravam personagens com perturbações do sono, dores corporais e
cansaços associados, sintomatologia hoje a associada a esta síndrome. Porém, tais
sintomas poderiam pertencer também aos mais diversos distúrbios, pois na época não
existia conhecimento sobre o assunto.
Na literatura médica europeia existem, desde o século XVI, descrições de dor e
sofrimento musculoesquelético, feitas pelo físico francês Guillaume de Baillou, que
escreveu pela primeira vez sobre o reumatismo muscular e referiu as manifestações
clínicas da dor muscular e articular (Domingues e Branco, 2008).
Mais tarde, em 1824, William Balfour, um médico britânico, descreveu uma dor identificada somente à
apalpação de certas vértebras (Wallace e Clauw, 2005; Domingues e Branco, 2008).
Em 1843, Froriep identificou pacientes portadores de “reumatismo”, sendo o primeiro
médico a descrever estruturas duras (nódulos), circunscritas e dolorosas ao nível dos
músculos, detetadas nos seus pacientes pela prática de massagens usadas no tratamento
de perturbações musculoesqueléticas (Smythe, 1989; Carvalho, 1996; Martínez, 2003).
Sir William Gowers, em 1904, introduziu, por analogia com o termo “cellulitis”, o
termo “fibrositis” (ou fibrosite) para descrever síndromes dolorosas musculares
regionais, sugerindo a inflamação do tecido muscular fibroso e eventuais nódulos como
causa desta condição, apesar da ausência de apoio laboratorial para esta teoria. Raph
Stockman, subsequentemente ao trabalho de Gowers, relatou a existência de alterações
histológicas nos nódulos caracterizantes do “reumatismo não articular” resultantes de
“hiperplasia inflamatória do tecido conectivo”, atribuindo esta reação a pequenas colónias de microrganismos que invadem o tecido (Bennett, 1981). A terminologia
“fibrositis” prevaleceu por várias décadas, devido ao facto dos estudos histológicos
terem sido suspensos. Investigações subsequentes, que decorreram na primeira metade
do século XX, não conseguiram confirmar as ditas alterações inflamatórias referidas
anteriormente, questionando assim a sua existência (Hadler, 1986). Alguns autores
apontaram também a possibilidade de os sintomas terem um carácter psicológico e
outros sugeriram que o termo “reumatismo de tensão” poderia ser o termo mais
conciliador, mas as suas causas não foram definidas (Smythe, 1989).
“Reumatismo muscular”, “reumatismo dos tecidos moles”, “reumatismo psicogénico”,
“mielastenia”, “tender lady syndrome”, “reumatismo não articular” e “mialgias difusas
sem etiologia orgânica reconhecida” foram algumas das terminologias usadas pelos
especialistas para se referir a esta condição, para além das já citadas (Raspe e Croft,
1995; Clauw, 2009; Heymann et al., 2017).
Entre os anos de 1975 e 1977, Hugh Smythe e Harvey Modofsky trouxeram
contribuições importantes relativamente à identificação e caracterização desta síndrome
ao proporem os que seriam designados de primeiros critérios para o diagnóstico da
fibromialgia, descrevendo pontos dolorosos específicos (designados tender points),
alterações do sono durante a fase 4 de sono profundo (n-REM), dor generalizada,
rigidez matinal e fadiga (Moldofsky et al., 1975; Smythe e Moldofsky, 1977;
Domingues e Branco, 2008).
Yunus)e os seus colaboradores (1981) propuseram a utilização do termo fibromialgia,
palavra derivada do latim fibro (tecido fibroso, presente em ligamentos, tendões e
fáscias) e do grego mio (tecido muscular), algos (dor) e ia (condição), devido à falta de
evidência de qualquer inflamação (–itis) no tecido conectivo destes indivíduos e
verificando que nos tecidos fibrosos existia –algia (dor) (Weinstenin e Buckwalter,
2005; Williams e Clauw, 2009). A partir daí vários critérios diagnósticos foram sendo
elaborados por diferentes grupos de pesquisadores para auxiliarem na investigação e
identificação da doença, tendo culminado na realização de um simpósio médico
internacional, realizado pelo Colégio Americano de Reumatologia (ACR) e na
publicação de um protocolo para o diagnóstico da fibromialgia, no ano de 1990 (Wolfe
et al., 1990).
Fibromialgia: Etiologia, Diagnóstico e Tratamento
A Organização Mundial de Saúde adotou este protocolo, que foi incluído na Décima
Revisão da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas
Relacionados à Saúde (CID-10), de 1990, com o código individualizado de M79.7, por
se classificar como um transtorno dos tecidos moles (Direção Geral de Saúde, 2017;
Romeyke et al., 2017). Refletindo as mudanças e os avanços na Medicina e Tecnologia
que aconteceram desde 1990, em 2018 foi lançado a CID-11. A estrutura de codificação
e ferramentas eletrónicas foram simplificadas, para permitir que o profissional possa
registar os problemas de maneira mais fácil e eficaz. A nova classificação conta com 55
mil códigos únicos para lesões, doenças e causas de morte versus 14.400 da CID-10. Na
CID-11 a fibromialgia foi classificada com o código MG30.01, estando inserida no
grupo de doenças responsáveis pela dor crónica (World Health Organization, 2018). A
fibromialgia foi oficialmente reconhecida através da Declaração de Copenhaga, em
1992, como uma doença reumática, deixando os doentes fibromiálgicos de serem
olhados como hipocondríacos (Csillag, 1992; Gremillion, 1998; Latorre-Santiago e
Torres-Lacomba, 2017).
Personalidades conhecidas, como Frida Kahlo, Charles Darwin, Alfred Nobel e
Florence Nightingale, foram identificadas como doentes fibromiálgicos, após a
validação deste conceito, reforçando a credibilidade desta doença (Quartilho, 2004;
Wallace e Clauw, 2005).
No ano de 2010, o ACR validou novos critérios preliminares para o diagnóstico da
fibromialgia, com base num estudo multicêntrico que contou com a participação de 829
pacientes. Estes critérios foram considerados preliminares devido a terem sido obtidos
através de uma pesquisa de relatos dos doentes. Os tender points deixaram de ser o
elemento central na identificação da doença e foi introduzida uma escala que permite
avaliar a dor – o Widespread Pain Index (WPI) – e uma escala de gravidade dos
sintomas – a Symptom Severity (SS) –, ambas baseadas nos sintomas do paciente (dor,
fadiga, sono, cognição e sintomas somáticos). Estas permitem uma acurácia diagnóstica
maior (90,8%) quando comparadas com os critérios ACR de 1990 (Wolfe et al., 2010).
